Sublimação Como Artifício de Sustentação da Coesão Cultural do Sujeito

Sublimação Como Artifício de Sustentação da Coesão Cultural do Sujeito Lacan, em seu Seminário XI, reformulou o conceito freudiano de sublimação, que tinha como prerrogativa ser um processo em que a libido é deslocada para objetos aceitos pela coletividade, produzindo empreendimentos artísticos, científicos e religiosos que elevam a experiência humana. Enfatizou que sublimar implica inscrever a pulsão no registro simbólico, gerando um “resto pulsional” que fundamenta o desejo. A partir dessas duas perspectivas, poderíamos supor que a sublimação não se reduz a um desvio pulsional, mas constitui um gesto simbólico que assegura tanto a estabilidade subjetiva quanto o ordenamento cultural que articula o desejo inconsciente às normas coletivas, sustentando a coesão social? O nascimento de uma forma de expressão Para dar início ao processo maiêutico aqui desencadeado, trarei à luz dois textos basilares da psicanálise que que serão de forma simbólica parturientes para o que desejo enunciar. Em O Ego e o Id (Freud, 1923), a sublimação é descrita como ato de “elevar” o objeto ao permitir que a libido encontre expressão em atividades compatíveis com as demandas sociais. Posteriormente, em O Mal-Estar na Civilização (Freud, 1930), o psicanalista aprofunda o tema, afirmando que a sublimação é o “preço” que pagamos pela civilização: ao renunciar à gratificação imediata, produzimos um “lucro cultural” que sustenta a vida em comunidade (p. 90). A sublimação consiste em desviar a energia libidinal de suas formas primitivas para empreendimentos socialmente aceitos, como a arte, a ciência e a religião, de modo que a pulsão encontre satisfação parcial em conformidade com a coletividade Freud, 1923, p. 47 Sublimar, portanto, é direcionar a energia libidinal na linguagem, de modo que cada obra de arte, cada descoberta científica ou cada prática ritual constituam canais que ligam o sujeito ao Outro social e, ao dar vida à essas manifestações, se evitam também angústias decorrentes de frustrações, gerando um lucro sociocultural. Nessa hiância entre sujeito e o Outro social se constitui um diálogo constante entre seus desejos internos e as normas externas, um conflito mediado pelo agente psíquico nomeado como Superego.  Ora, se há um conflito entre o que se deseja e aquilo que se exige do sujeito (e não por ele), ao oferecer uma via para investir a energia pulsional em projetos valorizados pelo meio, contribui-se para a formação do “eu”. O sujeito, ao sublimar, assume responsabilidade ética e cultural diante de sua própria libido e diante do meio, estruturando-se como agente que transcende a busca de prazer imediato e desloca e/ou desliza o gozo para outra esfera. Decorrente dessa manobra, a lei simbólica estabelece limites à busca de gozo imediato, mas também configura o campo onde a pulsão pode circular sob outra forma, instaurando o que Lacan nomeará de Nome-do-pai, cuja falta de inscrição como mediação simbólica evadem do sujeito, resultando em sintomas ou atos fora da linguagem. Ao sublimar, o sujeito não elimina a pulsão: ele a insere no discurso, gerando um resíduo pulsional — o resto — que persiste como marca de falta e orienta o desejo Lacan, 1964, p. 168 Nesse deslocamento, a satisfação direta cede lugar à criação de significados duradouros. Cada produção artística ou científica carrega a marca do “resto pulsional” e, por meio dessa marca, o sujeito afirma seu laço com o Outro simbólico. Ao sublimar, o sujeito aceita a falta estrutural e encontra, na representação da linguagem, o meio de transformar a pulsão em obra reconhecida pelo Outro. Sublimação, então, é mocinha ou vilã? O caráter positivo da sublimação reside no fato de que ela não cria sintomas, mas produz bens simbólicos que enriquecem a cultura, preserva o equilíbrio psíquico individual ao oferecer saídas criativas para tensões internas e evita que estas se manifestem de forma patológica.  Quando esses referenciais simbólicos perdem força ou entram em crise, manifesta-se um aumento do mal-estar coletivo, pois faltam vias legítimas para canalizar a energia libidinal em projetos socialmente aceitos. De uma forma bastante prática e recente, o impacto psíquico da sublimação como benfeitor social pôde ser amplamente observado no período pandêmico, momento em que as manifestações artísticas acharam meios de existir para alívio da coletividade que, naquele contexto, encaravam morte de forma aterrorizante. É possível inferir, então, que a sublimação faz papel duplo nesta trama, atua simultaneamente como mecanismo de defesa individual e como fator estruturante da coesão social. Do ponto de vista cultural, as produções resultantes da sublimação (obras literárias, pesquisas científicas, composições musicais, etc.) constituem repertórios simbólicos que atravessam tempo e espaço, oferecendo pontos de referência comuns. Esses referenciais alimentam tradições artísticas e científicas, sustentam instituições educacionais e servem de base para debates éticos e políticos. Por outro lado, a sublimação pode tensionar normas estabelecidas, pois inovações artísticas ou científicas frequentemente enfrentam rejeição inicial por serem via de manifestação política, de contrapor repressões, de gritar o que o Outro cala e atualizam os significantes coletivos promovendo, muitas vezes, transformações sociais. Em suma: A partir dos textos freudianos e do Seminário XI de Lacan, evidencia-se que a sublimação tal qual a transferência vai para além do que a palavra é capaz de suportar, além de mera defesa psíquica: é um gesto simbólico que garante a saúde subjetiva e a vitalidade cultural. Em Freud, a sublimação é ato de “elevar o objeto”, gerando “lucro cultural” e permitindo que a pulsão encontre expressão em atividades legitimadas pela coletividade. Em Lacan, a sublimação só se concretiza se a pulsão for deslocada ao simbólico, onde produz um “resto pulsional” e funda o laço com o Outro social. Assim, a hipótese de que a sublimação atua simultaneamente como defesa individual e como fundamento da coesão social confirma-se: ao produzir obras que circulam no tecido simbólico, o sujeito reforça o repertório coletivo de significantes, mantendo vivo o pacto entre desejo e norma. No trabalho analítico, se faz importante estimular a descoberta de canais criativos para a pulsão, e que as instituições culturais continuem a fomentar as produções oriundas desse processo, fortalecendo as bases simbólicas que sustentam a convivência civilizada e sustentando a coesão do sujeito inscrito no contexto social. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS FREUD, Sigmund. O Ego… Continuar lendo Sublimação Como Artifício de Sustentação da Coesão Cultural do Sujeito

A Fala em Setting no Contexto Pós-Pandemia de COVID-19​

A Fala em Setting no Contexto Pós-Pandemia de COVID-19 A fala sempre foi um dos principais instrumentos terapêuticos da práxis psicanalítica, permitindo ao paciente acessar seus conflitos internos e expressar seus sentimentos mais profundos. No entanto, o papel da fala no setting psicanalítico contemporâneo é influenciado por uma série de fatores, incluindo avanços tecnológicos, mudanças na sociedade e abordagens dialéticas, além dos impactos gerados pela pandemia. Aqui questiono, considerando as teorias de Freud e Lacan nas contribuições basilares para a compreensão da fala na psicanálise, como essa compreensão se aplica à prática clínica atual, cujos trabalhos ainda norteiam grande parte da práxis e novas produções teóricas contemporâneas? A fala como ferramenta clínica: fundamentação da Associação Livre Freud foi o pioneiro na utilização da fala como instrumento terapêutico na psicanálise. Para Freud, a fala em “associação livre” permitia ao paciente acessar seu inconsciente e revelar seus conflitos mais profundos. Através deste método, o analista poderia acompanhar as conexões de pensamento do paciente e identificar padrões significativos, descartando–se a exigência de notações dos conteúdos emergidos da fala. Como se vê, o preceito de notar igualmente tudo é a necessária contrapartida à exigência de que o analisando relate tudo o que lhe ocorre, sem crítica ou seleção. Se o médico se comporta de outra maneira, desperdiça em boa parte o ganho que resulta da obediência à “regra fundamental da psicanálise” por parte do paciente. Para o médico, a regra pode ser formulada assim: manter toda influência consciente longe de sua capacidade de observação e entregar-se totalmente à sua “memória inconsciente”, ou, expresso de maneira técnica: escutar e não se preocupar em notar alguma coisa. Freud, 1912, p. 88 No entanto, Freud também reconheceu que a fala nem sempre era suficiente para acessar certos conteúdos inconscientes, levando-o a desenvolver técnicas, naquele momento, como a interpretação dos sonhos e a análise dos lapsos de linguagem. Essa concepção freudiana da fala como via de acesso ao inconsciente estabeleceu as bases sobre as quais Lacan, décadas depois, ampliaria o campo de compreensão sobre linguagem e sujeito. O que Freud nomeou como expressão do inconsciente através da associação livre, Lacan retoma como um efeito da estrutura da linguagem sobre o sujeito. Assim, o que se apresentava como conteúdo a ser interpretado, na leitura lacaniana ganha contorno estrutural: a fala passa a ser lida, como um encadeamento de significantes, um “verbo-trama”¹ costurado que determina o próprio lugar de enunciação do sujeito. O que enunciará Lacan sobre a linguagem e a fala? Para Lacan, a fala não é apenas um meio de comunicação, mas também um sistema simbólico que organiza a experiência subjetiva do indivíduo. Ele, influenciado por Saussure, adota o conceito de significante e significado, mas invertendo a relação entre ele, postulando o que viria a ser conhecido como a primazia do significante sobre o significado Em Saussure, o signo linguístico é uma entidade dupla, composta por um significante (a imagem acústica, a forma como a palavra soa, imagem fonética) e um significado (o conceito ou ideia que a palavra evoca, a denotação), e se relacionam entre si de forma inseparável e arbitrária, ou seja, a relação entre a palavra e o que ela representa não é natural, mas sim convencionada socialmente. Lacan, propõe que o significante (S) e o significado (s) estão separados por uma barreira, e que o significante tem prioridade na constituição do sujeito e da experiência. O significado assume papel denotativo universal, enquanto o significante confere subjetividade, primordial ao entendimento do sujeito enquanto indivíduo, e não coletivo. Seja como for, é na medida em que o sujeito chega ao limite do que o momento permite a seu discurso efetuar com a fala que se produz o fenômeno no qual Freud nos mostra o ponto de articulação entre a resistência e a dialética analítica. Pois esse momento e esse limite equilibram-se na emergência, fora do discurso do sujeito, do traço que pode dirigir-se mais particularmente a vocês naquilo que ele está dizendo. E essa conjuntura é promovida à função de pontuação de sua fala. Para tornar apreensível esse efeito, servimo-nos da imagem de que a fala do sujeito bascula para a presença do ouvinte. Lacan, 1966, p. 374 Assim, a fala no setting psicanalítico contemporâneo é entendida como uma manifestação das estruturas inconscientes do sujeito, exigindo uma escuta sensível por parte do analista. Ao situar o sujeito na linguagem, Lacan desloca o analista de uma posição de mero decodificador de conteúdos para a de interlocutor que ocupa um espaço no campo da fala do analisante. Este reposicionamento ético e clínico modifica radicalmente o manejo da sessão, fazendo com que a escuta se organize menos em torno de conteúdos manifestos e mais em torno das construções linguísticas, silêncios, lapsos e deslocamentos de sentido. Este movimento de escuta preparou, sem que se soubesse à época, o campo teórico e clínico que viria a ser desafiado em cenários de crise como o da pandemia de COVID-19, onde a linguagem e os modos de enunciação sofreriam novas inflexões, seja pela vivência de traumas em escalas múltiplas, seja pelas novas formas de se relacionar que os indivíduos formularam a partir desta vivência. O contexto do setting psicanalítico contemporâneo pós-pandemia de COVID-19 A pandemia de COVID-19 trouxe consigo uma série de desafios para a prática psicanalítica contemporânea. O distanciamento social, o isolamento e a incerteza generalizada têm impactado não apenas a vida cotidiana das pessoas, mas também a maneira como os psicanalistas conduzem suas sessões e interações terapêuticas. Nesse contexto, é crucial revisitar as teorias de Sigmund Freud e Jacques Lacan para compreender como a fala e a escuta psicanalíticas podem ocorrer na contemporaneidade. Freud, em seu trabalho “A Interpretação dos Sonhos” (1900), argumenta que os pacientes revelam seus desejos reprimidos e conflitos psíquicos por meio da livre associação de ideias durante as sessões psicanalíticas. Ele postulou que a fala espontânea e sem censura permite ao analista acessar os conteúdos inconscientes do paciente, essenciais para o processo terapêutico. Além disso, explorou o conceito de transferência, ressaltando a maneira como os pacientes projetam seus sentimentos e experiências passadas… Continuar lendo A Fala em Setting no Contexto Pós-Pandemia de COVID-19​

Transferência, em análise, é o que vai para além do que a palavra é capaz de suportar

Transferência, em análise, é o que vai para além do que a palavra é capaz de suportar Até o dado momento da escrita do texto que norteia as implicações deste artigo, Freud havia tão somente feito apontamentos sugestivos para a práxis (prática e teoria) psicanalítica que ali estava sendo construída. E justamente aqui nos deparamos com um momento não mais apenas sugestivo, mas de notória imposição de argumento quando do âmbito da transferência e, mais precisamente, de um rapport (relação de confiança e empatia) apropriado, que Freud designa como imprescindível para a constituição produtiva da relação do analista com o paciente.   O renomado psicanalista aqui aposta que é necessário investimento de tempo na constituição da relação transferencial para que se eliminem as resistências que surgem durante o tratamento.   Tempo, aqui, recebe valoração, como investimento. Investem tempo no estabelecimento da relação tanto analisante quanto analista, em uma troca: há uma relação de perdas e ganhos, primários e secundários, que vão permear a psique de ambos no estabelecimento da relação de transferência dentro do setting analítico. Não será tema deste presente artigo discorrer acerca das questões econômicas do masoquismo que Freud abordaria apenas 11 anos depois em seus textos, mas trazer o exposto para tentar responder à pergunta que me deparo no estudo do texto “O Início do Tratamento”: não seria esse investimento de tempo também um investimento na própria resistência, a julgar-se pelo ganho secundário que dela advém?   Freud elabora no texto uma concepção de que o analista que tenha algum contato com a prática clínica não terá dificuldades ao perceber os desejos do analisante que permeiam seu discurso, mas que por um cuidado de manejo a fim de se evitar a resistência e dar sequência ao tratamento, a comunicação deste achado ao analisante deve ser evitada até que este esteja próximo o suficiente da descoberta dela por si mesmo, sendo assim apenas uma intervenção e não uma interpretação sugestiva ao analisante. Se a resistência é subterfúgio do inconsciente para negar o enfrentamento com o real, ao escancarar à força ao analisando, estaremos reforçando o comportamento e aumentando ainda mais a força deste mecanismo. Portanto, a intervenção do analista em setting requer também uma avaliação ética sobre seus próprios movimentos contra-transferenciais. Uma intervenção que advenha de um movimento contra-transferencial levará o analisante a demandar mais tempo para que o tratamento decorra.   Esse movimento de contra-transferência acontecerá como parte constituinte da relação de transferência no setting, uma vez que o analista não se abstém de todo do atravessamento, mas sim, se coloca em posição de imparcialidade (muito mais que neutralidade) diante do relato de seu analisante. A relação transferencial na psicanálise, muito mais que um amor pela verdade, é de não-julgamento e liberdade do analisante, que tem no setting um espaço para suas próprias elaborações. Não tem a ver com acertar ou errar uma aposta que nós analistas possamos ter, vai para além do que o sujeito é capaz de suportar dentro de suas próprias concepções, vivências e falas e/ou elaborações, dentro e fora de setting.   No ímpeto de interpretar selvagemente, o movimento do analista pode levar a uma maior resistência do analisante, comprometendo o desenvolvimento do tratamento. Isso deve ser observado e, não à toa, a supervisão clínica se faz necessária ao analista. Por meio dela, também é possível identificar o porquê de, inconscientemente, estar contribuindo para a falência do tratamento e vínculo terapêuticos, ou quaisquer outros mecanismos de defesa, a que o analista está igualmente exposto, até mesmo qualquer sentimento que advenha da possibilidade da perda do analisante dada por um iminente fim de tratamento.   O que aqui desenvolvo como ideia está calçado fortemente no campo da moral e da ética do analista para suportar o tratamento analítico. Mesmo que se saiba algo sobre o analisante, contribui mais para o percurso analítico deste se destituir gradativamente da posição de sujeito suposto saber que ocupamos no ínicio do tratamento. Transferência, em análise, é o que vai para além do que a palavra é capaz de suportar. Mais importante que a própria transferência estabelecida em setting, será o manejo clínico dela neste espaço para a construção da autonomia do analisante.   Em suma, é possível que o ganho secundário aqui não esteja necessariamente implicado na figura do analisante, mas sim do analista. Na relação terapêutica, o inconsciente movimento de tentar responder às demandas do analisante, mais do que acolher, e a implicação ou não do analista com sua própria análise pessoal e supervisão clínica, me levam a inferir que na relação ética que Freud propõe entre analisante e analista, o possível ganho secundário advindo da resistência pode ser observado ao se ignorar a práxis proposta, de dar tempo para que a transferência e elaboração ocorra. É de responsabilidade do analista também estar implicado em suas próprias elaborações para que, identificada a contra-transferência em setting, ela não seja prejudicial para a escuta flutuante e sequência do tratamento e que, de toda forma, o ganho que possa haver nesse contexto e qualquer anseio por um objetivo seja igualmente elaborado.   Bibliografia  Freud, S. (1913). Início do tratamento. Obras Completas – Volume 10: Cia das Letras Freud, S. (1924). O Problema Econômico do Masoquismo. Obras Completas – Volume 16: Cia das Letras   Texto produzido no Grupo de Estudos Sociedade de Terças, Turma I Originally published at https://www.dmdesenvolvimentohumano.com.br.

ATENÇÃO: Este site não oferece tratamento ou aconselhamento imediato para pessoas em crise suicida. Em caso de crise, ligue para 188 (CVV) ou acesse o site www.cvv.org.br. Em caso de emergência, procure atendimento em um hospital mais próximo.

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