A Fala em Setting no Contexto Pós-Pandemia de COVID-19 A fala sempre foi um dos principais instrumentos terapêuticos da práxis psicanalítica, permitindo ao paciente acessar seus conflitos internos e expressar seus sentimentos mais profundos. No entanto, o papel da fala no setting psicanalítico contemporâneo é influenciado por uma série de fatores, incluindo avanços tecnológicos, mudanças na sociedade e abordagens dialéticas, além dos impactos gerados pela pandemia. Aqui questiono, considerando as teorias de Freud e Lacan nas contribuições basilares para a compreensão da fala na psicanálise, como essa compreensão se aplica à prática clínica atual, cujos trabalhos ainda norteiam grande parte da práxis e novas produções teóricas contemporâneas? A fala como ferramenta clínica: fundamentação da Associação Livre Freud foi o pioneiro na utilização da fala como instrumento terapêutico na psicanálise. Para Freud, a fala em “associação livre” permitia ao paciente acessar seu inconsciente e revelar seus conflitos mais profundos. Através deste método, o analista poderia acompanhar as conexões de pensamento do paciente e identificar padrões significativos, descartando–se a exigência de notações dos conteúdos emergidos da fala. Como se vê, o preceito de notar igualmente tudo é a necessária contrapartida à exigência de que o analisando relate tudo o que lhe ocorre, sem crítica ou seleção. Se o médico se comporta de outra maneira, desperdiça em boa parte o ganho que resulta da obediência à “regra fundamental da psicanálise” por parte do paciente. Para o médico, a regra pode ser formulada assim: manter toda influência consciente longe de sua capacidade de observação e entregar-se totalmente à sua “memória inconsciente”, ou, expresso de maneira técnica: escutar e não se preocupar em notar alguma coisa. Freud, 1912, p. 88 No entanto, Freud também reconheceu que a fala nem sempre era suficiente para acessar certos conteúdos inconscientes, levando-o a desenvolver técnicas, naquele momento, como a interpretação dos sonhos e a análise dos lapsos de linguagem. Essa concepção freudiana da fala como via de acesso ao inconsciente estabeleceu as bases sobre as quais Lacan, décadas depois, ampliaria o campo de compreensão sobre linguagem e sujeito. O que Freud nomeou como expressão do inconsciente através da associação livre, Lacan retoma como um efeito da estrutura da linguagem sobre o sujeito. Assim, o que se apresentava como conteúdo a ser interpretado, na leitura lacaniana ganha contorno estrutural: a fala passa a ser lida, como um encadeamento de significantes, um “verbo-trama”¹ costurado que determina o próprio lugar de enunciação do sujeito. O que enunciará Lacan sobre a linguagem e a fala? Para Lacan, a fala não é apenas um meio de comunicação, mas também um sistema simbólico que organiza a experiência subjetiva do indivíduo. Ele, influenciado por Saussure, adota o conceito de significante e significado, mas invertendo a relação entre ele, postulando o que viria a ser conhecido como a primazia do significante sobre o significado Em Saussure, o signo linguístico é uma entidade dupla, composta por um significante (a imagem acústica, a forma como a palavra soa, imagem fonética) e um significado (o conceito ou ideia que a palavra evoca, a denotação), e se relacionam entre si de forma inseparável e arbitrária, ou seja, a relação entre a palavra e o que ela representa não é natural, mas sim convencionada socialmente. Lacan, propõe que o significante (S) e o significado (s) estão separados por uma barreira, e que o significante tem prioridade na constituição do sujeito e da experiência. O significado assume papel denotativo universal, enquanto o significante confere subjetividade, primordial ao entendimento do sujeito enquanto indivíduo, e não coletivo. Seja como for, é na medida em que o sujeito chega ao limite do que o momento permite a seu discurso efetuar com a fala que se produz o fenômeno no qual Freud nos mostra o ponto de articulação entre a resistência e a dialética analítica. Pois esse momento e esse limite equilibram-se na emergência, fora do discurso do sujeito, do traço que pode dirigir-se mais particularmente a vocês naquilo que ele está dizendo. E essa conjuntura é promovida à função de pontuação de sua fala. Para tornar apreensível esse efeito, servimo-nos da imagem de que a fala do sujeito bascula para a presença do ouvinte. Lacan, 1966, p. 374 Assim, a fala no setting psicanalítico contemporâneo é entendida como uma manifestação das estruturas inconscientes do sujeito, exigindo uma escuta sensível por parte do analista. Ao situar o sujeito na linguagem, Lacan desloca o analista de uma posição de mero decodificador de conteúdos para a de interlocutor que ocupa um espaço no campo da fala do analisante. Este reposicionamento ético e clínico modifica radicalmente o manejo da sessão, fazendo com que a escuta se organize menos em torno de conteúdos manifestos e mais em torno das construções linguísticas, silêncios, lapsos e deslocamentos de sentido. Este movimento de escuta preparou, sem que se soubesse à época, o campo teórico e clínico que viria a ser desafiado em cenários de crise como o da pandemia de COVID-19, onde a linguagem e os modos de enunciação sofreriam novas inflexões, seja pela vivência de traumas em escalas múltiplas, seja pelas novas formas de se relacionar que os indivíduos formularam a partir desta vivência. O contexto do setting psicanalítico contemporâneo pós-pandemia de COVID-19 A pandemia de COVID-19 trouxe consigo uma série de desafios para a prática psicanalítica contemporânea. O distanciamento social, o isolamento e a incerteza generalizada têm impactado não apenas a vida cotidiana das pessoas, mas também a maneira como os psicanalistas conduzem suas sessões e interações terapêuticas. Nesse contexto, é crucial revisitar as teorias de Sigmund Freud e Jacques Lacan para compreender como a fala e a escuta psicanalíticas podem ocorrer na contemporaneidade. Freud, em seu trabalho “A Interpretação dos Sonhos” (1900), argumenta que os pacientes revelam seus desejos reprimidos e conflitos psíquicos por meio da livre associação de ideias durante as sessões psicanalíticas. Ele postulou que a fala espontânea e sem censura permite ao analista acessar os conteúdos inconscientes do paciente, essenciais para o processo terapêutico. Além disso, explorou o conceito de transferência, ressaltando a maneira como os pacientes projetam seus sentimentos e experiências passadas… Continuar lendo A Fala em Setting no Contexto Pós-Pandemia de COVID-19
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